O tratamento de câncer no Brasil enfrenta um obstáculo silencioso que vai muito além da falta de verbas ou de aparelhos nos hospitais. Uma profissão vital para o funcionamento da oncologia, mas praticamente invisível para o grande público, passa por uma crise severa de escassez de mão de obra. Trata-se do cargo de físico médico, uma especialidade que registra um déficit de 359 profissionais no país, segundo um estudo publicado pela prestigiada revista científica The Lancet Global Health.
A grande vantagem para quem decide seguir essa carreira é encontrar um mercado de trabalho com empregabilidade altíssima e excelentes salários. De acordo com o portal Salário, com base em dados oficiais do Caged, a remuneração média da categoria em regime CLT fica na casa de R$ 8.773,87 para uma jornada de 39 horas semanais. Mesmo com esse valor atrativo, os hospitais públicos e privados travam uma batalha diária para conseguir preencher as vagas e montar as equipes técnicas exigidas por lei.
O que faz um físico médico no tratamento do câncer?
Ao contrário do que muitos pensam, a aplicação de radioterapia para destruir tumores não depende apenas do médico. Enquanto o radio-oncologista define qual região do corpo deve receber o tratamento, o físico médico atua nos bastidores da saúde como o responsável por fazer o tratamento dar certo com total segurança.
As suas principais tarefas diárias incluem:
- Cálculo de precisão: Realizar cálculos matemáticos complexos para garantir que a dose exata de radiação atinja apenas as células cancerígenas, protegendo os órgãos e tecidos saudáveis ao redor.
- Controle de qualidade: Testar, calibrar e monitorar diariamente o funcionamento das máquinas de alta tecnologia para que nenhuma falha técnica ocorra durante as aplicações.
- Proteção radiológica: Coordenar os protocolos de segurança contra radiação para proteger os pacientes, os técnicos e o próprio ambiente hospitalar contra vazamentos ou contaminações.
O funil na formação e as regras rígidas de segurança
A escassez de profissionais é explicada pelo percurso longo e rigoroso exigido para exercer a função. O mercado não aceita substituições: para atuar na área, o candidato precisa de um diploma de graduação em Física com habilitação em Física Médica (um curso pesado que une ciências exatas, radiação, matemática e anatomia) e, posteriormente, passar por uma residência hospitalar ou especialização em radioterapia.
Além disso, para poder assinar os laudos e assumir a responsabilidade técnica de uma clínica ou hospital, o profissional precisa obter um registro específico junto à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Esse nível extremo de exigência técnica cria um verdadeiro “funil” que limita o número de formados aptos a assumir as vagas abertas.
Falta de equipes completas atrasa o atendimento no SUS
O apagão de profissionais na oncologia não se restringe aos físicos. O levantamento indica que o Brasil também convive com uma carência de 960 médicos radio-oncologistas e de 2.676 técnicos em radioterapia. Esse déficit generalizado de trabalhadores ajuda a desmistificar um problema antigo da saúde pública: muitas vezes, as filas de espera e o atraso no início do tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS) ocorrem não por falta de equipamentos comprados, mas sim porque os aparelhos instalados ficam proibidos de funcionar por falta de uma equipe técnica completa para operá-los com segurança.
Além disso, a baixa visibilidade da carreira contribui para a falta de interesse dos jovens, que costumam focar em profissões tradicionais como Medicina ou Enfermagem por desconhecerem as ciências exatas aplicadas à saúde. Com o envelhecimento da população e o aumento dos diagnósticos de câncer, o desafio de treinar, valorizar e distribuir esses especialistas por todas as regiões do país virou uma prioridade urgente para evitar o colapso dos serviços de oncologia.
